quinta-feira, 9 de julho de 2015
sexta-feira, 12 de junho de 2015
DO CRONISTA ENQUANTO ESPIÃO
(ou Nove considerações de todo inúteis para ler este livro)
Prefácio do livro
Rubem
Braga com a FEB na Itália:
crônicas-reportagens,
literatura da notícia,
de José Geraldo Batista
(Curitiba: Prismas, 2014)
![]() |
| José Geraldo Batista na Casa dos Braga (Cachoeiro do Itapemirim – ES) |
Fernando
Fiorese
Nove
Todo prefácio é inútil. E ainda que se lhe atribuam numerosas
funções – como têm feito desde Aristóteles (Téchne
retoriké, circa 350-335 a .C.) até Gérard Genette
(Seuils, 1987) –, prefácio só
funciona quando inútil e anterior. O prae
do termo em latim (praefatĭo, -ōnis) e seus similares ante e pro – presentes nos sinônimos anteâmbulo, antelóquio, apresentação,
preâmbulo, prefação, preliminar, prelúdio, proêmio, prolegômenos, prólogo,
prolusão – referem tal anterioridade, e talvez encontremos nesta o modo como e
por que funciona o prefácio na sua brutal e inelutável inutilidade. Assim
poderia dar conta da questão que me espreita e aciona – e por isto endereço aos
eventuais leitores: por que me pedem e por que escrevo um prefácio, mesmo
sabendo tratar-se de um inutensílio textual?
No caso
deste prefácio, devo o pedido à generosidade do autor, José Geraldo Batista,
decerto uma retribuição a maior pela orientação da tese de doutoramento que ora
muda em livro. E se o escrevo não é apenas para estar à altura do convite, mas
porque escrevê-lo é a única resposta que posso dar à questão antes referida,
uma resposta decerto falha e transitória – melhor, no entanto, que a negativa ou
o silêncio. Se o escrevo é porque confio que, no seu caráter inútil e anterior,
o prefácio empresta ao leitor um lugar incomum, posto que não precisa existir.
Mas quando existe figura uma zona de fronteira onde descansar o corpo das
bagagens e reaver as forças para a viagem que importa.
Tal afiança Umberto Eco em Sei passeggiate nei boschi narrativi (1994), “todo texto é uma
máquina preguiçosa que pede ao leitor para fazer uma parte do seu próprio
trabalho”. Assim, todo prefácio não é mais que a soleira desta casa de máquinas
paradas, sempre à espera da energia laboriosa do leitor para entrar em
operação. Mesmo inútil e anterior ao tour
de force da leitura, o prefácio se dispõe como sombra da obra e, deste modo,
oferece ao leitor o tempo preciso e o clima ameno para ajuntar as forças
necessárias à ignição do texto-máquina.
Oito
A zona de fronteira é também o lugar
da crônica no concerto dos gêneros da escrita. Com parca bagagem, muitos
passaportes e corpo indecidível, a crônica transita do registro dos
acontecimentos cotidianos até o poema em prosa, com visitações à narrativa
curta, ao humor, à crítica (política, de costumes, dentre outras), à reflexão
filosófica, à memorialística, ao testemunho etc. Entre a objetividade
jornalística e as potências do imaginário, a crônica é bailarina na corda bamba
entre o fato e a ficção, sempre zombando da escolástica adaequatio rei et intelectus, sempre reenviando a imaginação à
realidade. Ainda que seja uma pausa na proliferação desenfreada de informações,
a crônica não refresca. Ao contrário, transtorna tanto os manuais de literatura
quanto a fácil dicotomia de verdade e mentira.
Sete
Contrabandistas, exilados,
desertores, prostitutas, alienados, traficantes, andarilhos, fugitivos,
soldados e espiões – sem qualquer julgamento moral ou analogias indevidas – são
habitantes típicos das zonas de fronteira. De qual destes tipos mais se
aproximaria a figura do cronista? Talvez do contrabandista, carregando cargas
ilícitas do jornalismo para a literatura (e vice-versa). Talvez do exilado que,
abandonando o território prosaico da imprensa, não quer mais que um visto
provisório para o país da poesia. Talvez do alienado, à deriva na terceira
margem do rio da escrita... Decerto do espião, a cujas características
específicas assim refere José Castello: “O cronista é um agente duplo: trabalha
ao mesmo tempo para os dois lados, e nunca se pode dizer, com segurança, de que
lado ele está. Na verdade, ele não está em nenhuma das duas posições, nem da
verdade nem na da imaginação – mas está ‘entre’ elas” (As feridas de um leitor, 2012).
Seis
A guerra será sempre uma zona de
fronteira onde abundam os tipos citados e muitos outros. Tanto que, na crônica
“Véspera de S. João no Recife”, assombrado pela sua primeira experiência como
correspondente de guerra durante a Revolução Constitucionalista de 1932, Rubem
Braga (1913-1990) reitera esta analogia: “... eu era um espião da vida, no meio
da morte. Eu ainda não tinha vinte anos, não tinha mais nenhum deus para me
entender depois da morte, não tomava banho há um mês, estava sujo e magro, meu
lápis de repórter quebrou a ponta. Havia esse mesmo crepitar de fogos pela
vasta noite, e, junto dos acantonamentos, as fogueiras se acendiam para os
soldados gelados. Meu papel de repórter estava sujo da terra das trincheiras,
eu já não escrevia nada. A guerra era demasiado estúpida para não me fazer
sorrir, eu não reconhecia aliados nem inimigos; apenas via homens pobres se
matando para bem dos homens ricos; apenas via o Brasil se matando com armas
estrangeiras” (O conde e o passarinho,
1936).
Cinco
O vocábulo “espião” alcança o português
através do italiano spione, derivado
de spia, substantivação do verbo spiare. Para encurtar o percurso
etimológico deste termo, que passa pelo francês antigo espier (a partir do frâncico ou do proto-germânico spëhon), diga-se logo da sua origem latina
no verbo specǐo, -ěre (avistar, ver, olhar), provavelmente advindo do grego skopeýo, com inversão da raiz. Fato é
que muito do étimo foi mantido nas línguas ocidentais – spion (alemão), espia
(castelhano), espion (francês), spy (inglês) etc. –, ainda que o
trabalho das passagens entre tantos idiomas tenha rasurado, abreviado ou
silenciado alguns dos sentidos originários do verbo grego (skopeýo): observar de longe, avistar; mirar, ter por fim, aspirar
a; ter cuidado, velar por, preocupar-se com; olhar, examinar, observar,
explorar, espiar; refletir, julgar, investigar; precaver-se; perguntar,
informar-se. Confio que, a partir deste elenco de significados, o leitor saberá
desdobrar as possíveis correspondências entre as tarefas do cronista e do
espião, em particular no cenário de guerra desvelado pela obra estudada por
José Geraldo Batista neste Rubem Braga
com a FEB na Itália: crônicas-reportagens, literatura da notícia.
Quatro
No teatro de operações da Segunda
Guerra Mundial (1939-1945), outra vez o repórter Rubem Braga se faz “espião da
vida, no meio da morte”, contrabandista da civilização nos campos italianos da
barbárie, exilado da paz à cata do lírico que possa existir na mais bruta e
cabal tragédia. Para tanto, cumpre ao correspondente de guerra inventar um modo
de ser cronista nesta zona de fronteira entre o “mal radical” do totalitarismo
(Hannah Arendt, Origens do totalitarismo,
1990) e o humano, demasiado humano dos pracinhas brasileiros: “Minha ambição,
quando fui escolhido para correspondente de guerra do Diário Carioca, era fazer uma história da campanha. Está visto que
eu não pretendia fazer uma história que interessasse aos técnicos militares,
mas uma narrativa popular, honesta e simples, da vida e dos feitos de nossos
homens na Itália. Uma espécie de cronicão da FEB, à boa moda portuguesa antiga”
(Com a FEB na Itália, 1945).
Três
O tal “cronicão” exigirá de Braga a
traição elegante tanto do jornalismo quanto da literatura. Por um lado, declina
dos princípios da objetividade, imparcialidade e universalidade para registrar
a campanha da Força Expedicionária Brasileira na Itália como quem escreve a
história imediata vista de baixo, ou seja, pelos olhos desarmados dos
pracinhas, aos quais o lápis e o papel do repórter dão voz e vez, identificando-os
pelo nome, cidade de origem e outros pormenores. Ainda que redigidas sob a
vigilância da censura estado-novista, as crônicas de Com a FEB na Itália não descuram das subjetividades transtornadas
pela guerra, da crítica aos totalitarismos de qualquer natureza ou latitude, do
redobrado interesse pelos personagens e acontecimentos mais banais e
comezinhos. Por outro lado, o devaneio e o lirismo que, por vezes, atravessam
estas crônicas são apenas um breve e necessário recreio para, algumas linhas
adiante, reencontrar e suportar a verdade chã da guerra, selva selvaggia de morte e miséria.
Dois
Considerado “comunista” pela
ditadura Vargas, um espião da liberdade nos intestinos do totalitarismo, Braga não
dispunha de franquia telegráfica para o envio de suas crônicas-reportagens, as
quais alcançavam o Rio de Janeiro via mala postal aérea, às vezes com lapso de
tempo superior a um mês. Tal restrição lhe permitia circular sem afobação por
todas as posições do campo de batalha, entabular longas conversas com todo tipo
de gente, incluindo expedicionários de qualquer patente e cidadãos italianos,
demorar-se na observação minuciosa da paisagem natural e humana. Ou seja, o
cronista podia realizar todos os sentidos originários do verbo grego skopeýo, podia ser o espião que se
propôs, armado tão somente de imaginação lírica e fúria jornalística.
Um
Este texto foi apenas uma contagem
regressiva. Cumpre a você, leitor, acionar a máquina que José Geraldo Batista
engenhou sem qualquer preguiça nas páginas que seguem.
Zero
Juiz de Fora, junho de 2014.
Post scriptum:
Rubem Braga
com a FEB na Itália: crônicas-reportagens, literatura da notícia, de José
Geraldo Batista, pode ser adquirido no site
da Editora Prismas: http://editoraprismas.com/loja/product_info.php?products_id=334&osCsid=cb48320d3473ec19b70a858ef21d4998.
sexta-feira, 15 de maio de 2015
CHERUBINO AL DI LÀ DEL TEMPO PREDATORE: MEMÓRIAS DE AMOR E AMIZADE NA LÍRICA DE ANNALISA CIMA
Leia as micronarrativas
de Breviário
nas postagens abaixo.
Por onde começar a publicação da obra de uma poeta italiana que, inaugurada em 1969, permaneceria inédita no Brasil até 2002? No sentido cronológico, do livro de estréia à produção mais recente, de modo a oferecer ao leitor as diversas estações da viagem lírica empreendida? Ou acolhendo um percurso à rebours, conforme a prática editorial adotada em antologias e reuniões poéticas? Como seduzir uma editora para tal empreitada, quando em geral o mercado se mostra tão avesso à poesia? De que modo apresentar uma obra já extensa através de um único título, sem com isso incorrer nos riscos próprios a qualquer procedimento metonímico?
Tais questões nos assaltam diante da publicação de Hipóteses de amor (Ipotesi d’amore), de Annalisa Cima, pela Ateliê Editorial. E talvez tenham mesmo assaltado Maria Eugenia Boaventura e Ivo Barroso, organizadores do livro que, publicado na Itália em 1984, mereceu uma bela e cuidada edição brasileira, à altura da obra da poeta milanesa e da tradução iniciada por Alexandre Eulalio (1932-1988) em 1985 e completada por Ivo Barroso. Tal como os 36 poemas do volume, escritos sob o signo do amor e da amizade, também esta edição bilíngue parece-nos ter como motor estes mesmos sentimentos, pois trata-se de uma ação entre amigos, no sentido mais belo, nobre e amorável que se possa encontrar para a expressão.
Não nos cumpre falar da amizade de Annalisa Cima e Alexandre Eulalio ou da homenagem que Maria Eugenia Boaventura e Ivo Barroso prestam àquele crítico, tradutor e poeta, completando a sua obra interrompida. Hipóteses de amor nos diz já na sua estrutura dos modos plurais que Eros empregou para presentificar-se e engendrar o volume. Desde o prefácio até as fotos e cartas de Eulalio a Cima que emolduram a obra, passando pelo posfácio escrito pela poeta especialmente para a edição brasileira – e que se encerra com um poema dedicado ao amigo e tradutor –, a escritura mesma dos textos exigia a forma física que o livro soube encontrar.
E saberá encontrar também o leitor a forma de se aproximar da obra de Annalisa Cima através de Hipóteses de amor, bastando recorrer aos poemas da primeira parte para a lição acerca dos modos deste avizinhar-se. Sob o título “A Cherubino”, os doze textos iniciais são, conforme as palavras da própria autora no posfácio, “um solilóquio do poeta, solilóquio que tende a identificar a miragem, o sortilégio do amor por si mesmo e pelo outro, numa duplicidade que é espelhamento” (“Posfácio”).
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| Capas das edições italiana e brasileira. |
Figurações de Eros
Os sentidos paradoxais, ambíguos e incertos do personagem-signo Cherubino se desvelam como as muitas figurações de Eros que, nos interstícios do texto poético de Annalisa Cima, insinuam-se como memória do desejo carnal e dos diálogos intelectuais, como o amor que ousa dizer os seus múltiplos nomes, as suas numerosas hipóteses. Assim, através do arranjo entre o karibu babilônico, o kerub da tradição hebraica e o Cherubino mozartiano, Eros exsurge para domar il tempo predatore (título de uma outra recolha da poeta, 1997) e textualizar a memória dos encontros da autora com o amor-Marte e a amizade-Vênus.
Tudo principia pelo que promete a aproximação alada no poema 1. da seção “A Cherubino”:
Talvez analogias naturais
dançam alegria
talvez descorado tédio
do engano
vão
hipóteses de amor.
Talvez bastasse
uma lâmina
para trinchar pensares
futilidade, e dar-nos
em fundível encontro
compacteza
temperatura
gana.
As sortes da guerra
são incertas.
Vencerei: Vênus
a mim dá reinos
que Marte doa a outros.
Ao modo de prólogo e índice remissivo, o texto inaugural da obra tanto anuncia o avizinhar-se do puer alatus, a miragem deste ser encantador, quanto antecipa o jogo de Eros, em suas muitas partidas desdobrado nos textos posteriores. Neste sentido, os versos iniciais referem as várias e dúbias gêneses do deus grego, incluindo as “analogias naturais” que o fazem figurar entre os quatro elementos primevos da cosmogonia helênica, juntamente com Caos, Terra e Tártaro (cf. Hesíodo, Teogonia, v. 116-122), ou que atribuem o seu nascimento a um “ovo sem germe” produzido pela Noite (cf. Aristófanes, Os pássaros, v. 693 ss.). Tais referências não descuram da participação de Eros, em parelha com Desejo (Hímeros), no séquito de Afrodite (a Vênus romana), deusa com a qual partilha, além da beleza, outras das dádivas que, ainda segundo Hesíodo, lhe couberam “entre homens e Deuses imortais”: “as conversas de moças, os sorrisos, os enganos, o doce gozo, o amor e a meiguice” (Teogonia, v. 204-206).
E prosseguem as alusões às variantes do mito de Eros, desde o episódio da lança por ele utilizada para despertar Psiquê – “Talvez bastasse / uma lâmina / para trinchar pensares” – até o “descorado tédio” que o lógos da metafísica de Platão lhe empresta ao inaugurar a oposição entre o “amor natural” e o “amor intelectual”, com privilégio deste último. Tédio este que a filosofia cristã tratou de acentuar através do repúdio a Eros como amor concupiscientiae ou vulgaris e da eleição da caritas como sinonímia do amor divinus, até a quase completa domesticação daquela criança nua, zombeteira, patética e perigosa pelo pequeno e insosso deus Amor da cristandade.
Não por acaso, as referências avançam no sentido de surpreender e acionar o Eros adormecido, domado ou dissimulado nas brechas da tradição artístico-literária do Ocidente. De forma que os atributos do deus – abrupto, alegre, dúbio, fútil, lascivo, perigoso, bélico etc. – encontram fons et origo também (e dentre outros) em Dante Alighieri – “... quando m’apparve Amor subitamente, / cui essenza membrar mi dà orrore. // Allegro mi sembrava Amor tenendo / meo core in mano” (Vita nuova, III, v. 11-12); em Torquato Tasso – “Amore, in qual scola, / da qual mastro s’apprende / la tua sì lunga e dubbia arte d’amare?” (Aminta, ato II, cena III); “... ma il suo scherzar è pieno / di periglio e di danno. [...] Facilmente s’adira / facilmente si placa; e nel suo viso / vedi quasi in un punto / e le lagrime e ’l riso” (Idem, epílogo); em Pierre de Ronsard – “Amour et Mars sont presque d’une sorte: L’un en plein jour, l’autre combat de nuit” (Les amours de Cassandre, soneto CLXXX); e no libreto de Lorenzo da Ponte para Le nozze di Figaro, opera buffa de Wolfgand Amadeus Mozart – “Non so più cosa son, cosa faccio, / or di foco, ora sono di ghiaccio” (Le nozze di Figaro, cena V, ária de Cherubino).
Serão estas referências, predicados e imagens desdobradas nos demais textos da seção “A Cherubino” como simulação de uma narrativa – sempre breve, lacunar e avessa a qualquer cronologia – dos embates com Eros kallistos. Assim, já no poema 2, ecoa a voz tomista e aristotélica de Dante – “Amante amado amando-te” –, enquanto no 3 súbito irrompe Cherubino – “Com boca de menino” –, então confundido com Aminta, personagem enamorado da citada favola pastorale de Torquato Tasso, para rubricar o “amor pien di gioia e di salute” (Aminta, ato I, cena I). Contrapondo-se ao débil Amor cristão, o Cherubino com que monologa Annalisa Cima tem por epíteto “remédio ao tédio” (poema 6), destinado que está às “horas do proibido” e às funções guerreiras de Marte, metaforicamente assinaladas no poema 7 com uma citação em latim da comédia A corda, de Plauto: “rem acu tetigisti” (“tocar a coisa com a agulha”).
O que “começou como jogo” (poema 4) exigirá o empenho de todo o corpo, com suas alegrias e dores. Corpo que se nomeia em boca, pupila, dentes, mão, costas. E nomeando-se, mais se dá do que se recusa: “tenho lágrimas nos olhos / e sal no meu palato” (poema 2); “imprevisto chamado / de olhos que me fazem / empalidecer” (poema 4); “Movo os passos / para sutis reencontros” (poema 9). Porque se trata do corpo erótico, cujos atributos foram antes anunciados no poema 1: “compacteza / temperatura / gana”. De forma que este corpo que apela a Cherubino para o “fundível encontro” (poema 1) – ersatz da hierogamia originária engendrada pela potência unificadora de Eros – desvela a força elementar que domina e reúne amante e amada, como demonstram os excertos dos poemas 2, 4 e 8 que, respectivamente, transcrevemos:
mas não há hiato entre nós
que somos
calor calado no viver deixando
e quando te olho
vejo que és o sol
......................................................
Ao alado peço
que não feche o jogo
conheço os antigos sinais de fogo
......................................................
Agora o indefeso pensar
tem o sofrido da febre
Inflamados pelo fogo de Eros, os corpos se entregam às “sortes da guerra” (poema 1) – “Há sempre estações de pranto / e estações em que o canto dos dias / muda o passado congelado” (poema 2) –, pois o jogo de ousadias de Cherubino acaba por vencer a palidez e as resistências da amada: “suave depor o rigor / a tempo e hora” (poema 4). Não sem feridas, amarguras, febres, lonjuras, sinais de ameaça e abandonos, os amantes elaboram as “mesuras do dar, do querer (poema 8)”, encontrando juntos o devir que apenas os corpos amorosos realizam:
Chegaste
e a tua mão desperta motivos
dançando sobre declives divinos.
Gemes, e as paredes
ouvem o teu ardor.
Lisa, alissa, leve
ut, fenice, vale
reténs nunca e ainda,
pelas costas o cavaleiro
senta e devora.
(poema 12)
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Visite o site de Annalisa Cima,
http://annalisacima.com/homepage.htm.
|
Da amizade-Vênus
Enquanto a
primeira seção de Hipóteses de amor
nos apresenta as várias figurações de Eros, travestido num Cherubino que é o
arranjo das muitas e dúbias manifestações daquele deus com os atributos do
híbrido karibu babilônico (metade
homem, metade animal) e do sedutor Cherubino mozartiano, os poemas reunidos sob
o título “A outros” acrescenta a este personagem os caracteres do angélico kerub da tradição hebraica, símbolo da
efusão de sabedoria. Pois, embora não seja menos caloroso o sol erótico que
ilumina os familiares e amigos homenageados nesta segunda e última seção, é
diversa a medida e o vigor amorosos desses diálogos que, ainda quando realizados
post mortem, buscam “o desconhecido
momento, de juntos reencontrarmos o tempo” (“A vovô Francesco”), “o emblema de
um mudo lembrar-te” (“A S.”), de modo a fazer durar na memória os saberes
destes outros querubins.
Nos poemas que dedica a Jorge Guillén,
Eugenio Montale, Marianne Moore, Pier Paolo Pasolini, Ezra Pound, Giuseppe
Ungaretti e Luchino Visconti, apenas para citar os mais conhecidos entre nós,
Annalisa Cima deslinda o que permanece do alegre aprendizado humano e lírico com
os “componentes de uma família utópica” (“Posfácio”). Nas palavras da autora, o
fulcro destes textos “é a amizade como momento privilegiado: sentimento que
redime o mundo de suas torpezas” (Idem),
na medida em que nos permite vencer “a moribunda / presença do tempo” (“A
Franco Fortini”) e conciliar “desejo e distância” (“A Marianne Moore”). De
forma que a amizade-Vênus ensina e concede à palavra poética “o ouvir as nossas
rimas / votadas ao não findar” (“A Giuseppe Ungaretti”). Mudar o outro em
texto, dizer os amigos e traduzir suas lições é o mesmo que olhá-los “sem tempo
nem lugar” (“A Luigi Fenga”). Trata-se de vencer os avanços da morte através da
alegria de louvar com palavras amorosas, tal exemplifica o poema “A Cesare
Segre”:
Alegria de louvar
o louvado amigo
que da linguagem
regula o pensar.
[...]
Urge continuar lado a
lado
a palavra
porque nosso amor
nossa pátria.
Quando e apenas sob o signo de Eros, a palavra é penhor do encontro, seja
ele amor ou amizade, seja com Vênus ou Marte, seja no tempo ou na eternidade.
CIMA, Annalisa. Hipóteses
de amor. Trad. Alexandre Eulálio e Ivo Barroso. São Paulo: Ateliê, 2002.
sexta-feira, 17 de abril de 2015
FACE AO QUE NUNCA SE DEITA
nas postagens abaixo.]
Prefácio do livro Corpo arquivo, de Paulo Andrade
(São Paulo: Patuá, 2014)
Fernando Fiorese
Le
corps touche à tout du bout secret de ses doigts osseux.
E
tout finit par faire corps...
(O corpo toca tudo com a ponta
secreta de seus dedos ossudos.
E tudo acaba por fazer corpo ...)
Jean-Luc Nancy
Mesmo ao
prefaciador, em geral, o poeta não dá a conhecer o desalinho caótico ou a ordem
cirúrgica de sua oficina, mantendo sob grossos tapumes o canteiro acidentado ou
bem medido da obra e seus processos. E quando alcança as mãos do leitor, o
livro já não dispõe do sujo e das aparas que ficam dos versos, ainda quando se
possa adivinhar neles os caminhos do serrote, os golpes do martelo e um ou
outro prego embutidos. Seja por pudor ou truque de elegância, técnica de higiene
ou soberba, o escondimento dos andares e desandares da criação é um dos muitos
demônios que assombram o ofício lírico, uma obsessão por vezes mudada em ars
poetica, tal a lição de Olavo Bilac em “A um poeta”:
Longe do
estéril turbilhão da rua,
Beneditino,
escreve! No aconchego
Do
claustro, no silêncio e no sossego,
Trabalha,
e teima, e lima, e sofre, e sua!
Mas que na
forma se disfarce o emprego
Do
esforço; e a trama viva se construa
De tal
modo, que a imagem fique nua,
Rica, mas
sóbria, como um templo grego.
Não se
mostre na fábrica o suplício
Do mestre.
E, natural, o efeito agrade,
Sem
lembrar os andaimes do edifício:
Porque a
Beleza, gêmea da Verdade,
Arte pura,
inimiga do artifício,
É a força
e a graça na simplicidade.
Outras vezes, para
ficar em dois casos apenas, esta mesma neurose se torna questão, através da
qual algo dos intestinos da empresa criadora é desvelado, ainda que, como nestas
duas estrofes do poeta-crítico João Cabral de Melo Neto, a partir de uma “Exceção:
Bernanos, que se dizia escritor de sala de jantar”:
Por que é
o mesmo o pudor
de
escrever e defecar?
Não há o
pudor de comer,
de beber,
de incorporar,
e em geral
tem mais pudor
quem pede
do que quem dá.
Então por
que quem escreve,
se escrever
é afinal dar,
evita
gente por perto
e procura
se isolar.
Escrever é
estar no extremo
de si
mesmo, e quem está
assim se
exercendo nessa
nudez, a
mais nua que há,
tem pudor
de que outros vejam
o que deve
haver de esgar,
de tiques,
de gestos falhos,
de pouco
espetacular
na torta
visão de uma alma
no pleno
estertor de criar.
[...]
Além das
delícias da digressão – esse demônio menor que confere certo sabor à escrita da
prosa crítica –, as considerações precedentes se justificam pela circunstância
rara do prefaciador ter conhecido uma das versões anteriores deste Corpo
arquivo, de Paulo Andrade, versão sob outro título e para sempre esconsa e perdida,
exceto, talvez, para algum pertinaz e afortunado especialista em crítica
genética. Pois não pretendo cometer a indelicadeza de segredar qualquer tique
ou gesto falho que tenha surpreendido entre os dois estados da obra. Muito
menos me ocorreria a indiscrição de apontar as marcas dos andaimes e outros
artifícios que sustentaram e moveram a reescrita, realizada sempre com a
estranha alegria e o extremo cuidado de quem constrói para a habitação do
outro, com a angústia e a urgência absurda de quem sabe que o fim da obra é
também uma morte.
Ajuntado à
leitura do primeiro livro do autor – Inventários (2002), do qual poemas
migraram para este volume – e a algumas poucas palavras do próprio poeta acerca
dos bastidores do processo de reescrita, tal acidente se oferece como incipit
e motor para a abordagem sucinta da poética de Paulo Andrade. Grosso modo,
trata-se de uma poética que se quer e se faz o que a obra é, ou seja, uma
construção em perpetuum mobile, nunca acabada e de nenhum modo pessoal e
intransferível, pois urdida pelas vozes de vários e pelo plural das
circunstâncias. Em contraposição ao que sugerimos nos parágrafos de abertura,
ao menos em parte e desde o título, epígrafes escolhidas e a “Advertência” do
autor, o corpus deste livro não faz segredo absoluto da matéria e dos
artifícios que se desdobram na costura de suas seis seções, a saber: “Arquivo
do corpo”, “Corpos dramáticos”, “Corpos etéreos”, “Corpos ex/cêntricos”,
“Câmera escura” e “Venenos mínimos”.
Desculpando-me com o
poeta por esta única indiscrição, devo revelar que, na primeira versão que me
foi enviada, o livro se intitulava Corpo, linguagem. E não há nada de
aleatório, gratuito ou mero capricho na mudança para Corpo arquivo,
ainda que com a manutenção do título inicial num dos poemas. A priori, tanto
a supressão da vírgula, na medida em que transtorna a relação sintática entre
os vocábulos e embaralha a semântica dos mesmos, quanto a substituição de linguagem por arquivo, correspondendo a um “rebaixamento” do conceitual para o
material, rubricam o empenho de Paulo Andrade no sentido de colocar a nu os
andaimes da obra, ou seja, as questões que o mobilizam e o colocam à altura do
diálogo com a matéria bruta do seu tempo. Tais questões, desveladas em parte
pelos títulos das seções e pelas epígrafes de Armando Freitas Filho, Salgado
Maranhão e Murilo Mendes, encontram-se condensadas por inteiro no título, como
fora este um minúsculo cosmos a ser expandido conforme o pulsar dos poemas.
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| O autor... |
Para ser
breve como exige um prefácio digno deste nome, diria que a linha de força que aciona
e alinhava o repertório das questões desdobradas ao longo deste livro refere-se
à dualidade entre physis e logos, que encontra no corpo o locus incommōdus no qual se dão suas cismas, seus
cilícios, suas cifras, seus crimes. Tão originária e primeva quanto
contemporânea, tal dualidade exsurge em tradução livre já no título da obra –
corpo = physis; arquivo = logos –, enquanto os poemas surpreendem
algumas das muitas figurações da crise do corpo, a começar pelas tantas perplexidades
diante de seus “acordes dissonantes”, de “seu ritmo assimétrico, suas harmonias
/ politonais” (“A sagração da primavera”). Nada disciplina a physis, o
“corpo em constante devir”, porque “é da natureza da natureza ser /
incivilizada, subversiva”, porque sempre “esperando / o abraço do imponderável”
(Idem). Carne que “ainda persiste em ser atlas” (“Arquivo”) [1], a physis
resiste às forças legislativas do logos – “Circuitos entram em curto / e
uma guerra se instaura” (Idem) –, e nesta resistência toma corpo o
poema, arquivo-logos transtornado pelo corpo próprio e pelas “linhas e
dobras” (“Corpo, linguagem”) do corpo do outro. Assim, no desandar de suas
andanças, as metáforas [2] e outras textualizações do corpo são a prova cabal dos
modos como a physis desvia de ser apenas uma “prosaica / coleção de
inventários” (“Arquivo”), fazendo do poema o seu campo de batalha – não para
aniquilar o logos, mas para estar à altura deste outro, de sua
diferença, à altura do devir que somos, à altura do pólemos desvelado
por Heráclito: “De todas as coisas a guerra é pai, de todas as coisas é
senhor...” (fr. 53).
Igual
embate entre o corpo selvagem e o corpo civilizado encontramos nos poemas
“Corpo, linguagem”, “Canto de sereia” e “Entreato”. Afinal, enquanto ars
erotica, o “amor natural” é também repto entre corpos, arquivo de energias
vitais e de petites morts, questão em aberto, irrespondível:
enredados
no tempo
vivemos
sem compreender
se estamos
aqui para
entender
ou para viver
(“Entreato”).
E ainda que prevaleça
a lição da “Arte de amar”, de Manuel Bandeira – “Deixa o teu corpo entender-se
com outro corpo. // Porque os corpos se entendem, mas as almas não” –, a
problemática do corpo não arrefece. Ao contrário, o tempo lhe acrescenta mais e
mais clausuras e horizontes, higienes e pecados, naturas e artifícios, monstros
e ideais. A ponto de encarnar as palavras de Walter Benjamin – “Nunca houve um
monumento da cultura que não fosse também um monumento da barbárie” –, de mudar
o ideal em monstruosidade, como nas práticas contemporâneas do “Fitness”:
Por isso
corre para expulsar-se
para
expulsá-lo de si aquele corpo
(que não
lhe pertence?) ele não sabe
Mas ela
odeia suas carências e subversões
Obteve
sucesso em seu plano de fuga
hoje
habita um outro desconhecido corpo
Contra a
desaparição do corpo na cena contemporânea pela ascese (bulimia, anorexia,
obesidade) ou pela assepsia (maquilagem, cirurgia estética, próteses) de seus
abismos, tormentas, tensões, vácuos e enigmas, o poeta investe na multiplicação
de corpos. De um lado, a “escritura inscrita / entre a vida e a morte” (“O
polvo e seus tentáculos”) empresta corpo a um plural de dramatis personae
de poetas e artistas plásticos (Torquato Neto, Lautréamont, Cabelo, Jack
Johnson e William Turner); de outro, nos “corpos etéreos” – porque plásticos,
fluidos, alheios, metamórficos – de gatos, beija-flores, abelhas e caranguejos,
experimenta-se a mais radical alteridade, o devir animal. Ao inumano
acrescenta-se também o desumano dos “Corpos ex/cêntricos”, marginais e
marginalizados, proliferando invisíveis na vertigem famélica e artificiosa das
metrópoles (“Sem-abrigo”, “Moto-boy” e “Natureza morta”). Na carne e no fluxo da
linguagem, Paulo Andrade desarquiva uma demasia de corpos – estranhos, belos, eróticos,
tóxicos, chagados, enigmáticos – para que o corpo seja o que é, monumento de
barbárie e cultura, corpus corporum. Porque corpo só existe no plural,
no contágio, na acoplagem.
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| ... e a obra |
E deste
corpo a corpo com o exterior e com o outro exsurge a diferença do corpo próprio
do poeta, a “Câmera escura” e singular da memória, da biografia. De “Genealogia
da asma” ao poema em prosa “Por isso não se confunde...”, abre-se o arquivo da infância
agreste e sem mitos. Poucos autores terão apresentado um retrato tão cru e
cruel da infância, bordada de muitas mortes, faltas, acidentes, asfixias, dores,
negativas e assombramentos:
Nem sempre
a realidade
é uma
ilusão de ótica
nem a
escrita converte
em matéria
o ato imodificável
o selvagem
da imagem que
sobrevive
oculto entre ruínas
e
escombros.
Não há
escavação arqueológica
que remova
tais vestígios.
Há
rebeliões no sótão que irrompem
à revelia
os arquivos ressoando
assombramentos
na câmera escura.
(“Assombramentos”)
Na memória
dos desalinhos da linhagem e dos paradoxos e paroxismos da criança, o poeta
rubrica a diferença do corpo de si mesmo. Daí que o corpo do adulto (em
trânsito) possa olhar e dizer o corpo do infans (imóvel e mudo):
“naquela varanda onde crianças / brincam com o barro estou // os pés fincados”
(“Caderno de viagem”). Corpos de prova, corpos em prova, errantes e atentos aos
incêndios da poesia, à circulação dos “Venenos mínimos”, à “Errata” que se
impõe:
são dois
corpos mirando
não entre
si
mas o
ponto que converge
no futuro
Os corpos do
eu e do outro, do menino e do homem, de Paulo Andrade e de Sebastião Uchoa
Leite – tantos corpos e a mesma questão:
o que
fazer com tantos
lapsos,
atos falhos,
esquecimentos
equívocos
(“Para
Sebastião Uchoa Leite”)
Porque são eles, esses
tantos corpos, disjecta membra sob as trevas do nosso tempo. E embora o
excesso de luzes ameace recalcar a physis em pura imagem, não se arreda
a questão originária do logos heraclítico – “Como alguém poderia
manter-se encoberto face ao que nunca se deita?” (fr. 16). Não por acaso, nas
forças de fratura e nas linhas de sutura dos textos de Paulo Andrade ecoam as
palavras de Giorgio Agamben: “O poeta, enquanto contemporâneo, é essa fratura,
é aquilo que impede o tempo de compor-se e, ao mesmo tempo, o sangue que deve
suturar a quebra”. Trata-se de manter a descoberto a tensão indecidível entre physis
e logos para que nunca se deite o corpo do texto, do tempo e do ser.
Juiz de Fora, 20 de
abril de 2014.
Notas
[1] Mesmo a inicial minúscula não permite esquecer o titã
grego, representação mítica das forças do caos e da desordem submetidas e
disciplinadas por Zeus, conforme a Teogonia,
de Hesíodo: “Atlas, sustém o amplo céu sob cruel coerção / nos confins da Terra
ante as Hespérides cantoras, / de pé, com a cabeça e infatigáveis braços: /
este destino o sábio Zeus atribuiu-lhe” (v. 517-520).
[2] Do grego, metá
(= “no meio de, entre; atrás, em seguida, depois; com, de acordo com, segundo;
durante”) + phérō (= “levar,
carregar, transportar, trazer; suportar, encontrar; resistir; arrebatar”).
Post scriptum:
Corpo arquivo, de Paulo Andrade, pode
ser adquirido no site da Editora
Patuá:
sexta-feira, 20 de março de 2015
LEGENDA PARA AS TANTAS FOTOGRAFIAS DE HUMBERTO NICOLINE
[Leia Breviário
nas postagens
abaixo.]
Publicado no catálogo da exposição Olhares imersos,
de Humberto Nicoline
(Museu de Arte
Murilo Mendes, Juiz de Fora, dez. 2014)
![]() |
| Humberto Nicoline, por Fernando Barbosa |
Fernando Fiorese
Nestas tantas fotografias,
nenhuma falta. Cada qual inteira, como qualquer mundo em miniatura. Durável,
como o rabisco do primeiro relâmpago na memória. Portátil, como um livro antes
da leitura. Nenhum excesso. Aqui, o cúmulo encontra o seu grau zero.
Personagens, bichos, objetos, paisagens, acontecimentos: cada coisa um seu
lugar. Pode-se desdobrar os possíveis dos acidentes, acarinhar os bichos mais
arredios, tocar as máscaras das personagens, arrastar o horizonte da paisagem,
surpreender os objetos em si – esses outros esquecidos. O que falta falta ao real, pois o tempo o fez
perder: a totalidade. O real que continua sem a fotografia não é menos
instantâneo e fragmentário. Decerto mais urgente, mais casual, mais
desarrumado, mais famélico, mais mortal. Analogon
da desejada e impossível morte feliz, a fotografia faz iguais o minúsculo e o
monstruoso, coloca o tempo e a matéria na medida do homem, abre um mundo nos
arredores da infância ou da utopia, rubrica os pés bailarinos, céleres e
casuais do devir. Sem gambiarras ou manobras químicas, o olho-máquina de
Humberto Nicoline sabe mudar o fragmento em cosmos, o instantâneo em pequena
eternidade, a mecânica em memória. Porque se a máquina recorta o espaço, seus
limites, cumpre ao olho surpreender, com obstinado rigor, o tempo justo e
preciso em que o acaso encontra o mais belo arranjo das coisas e dos corpos.
Assim o fotógrafo nos oferta o repertório de agoras que dá sentido à
biografia de cada um e à história de todos nós.
Juiz de Fora, inverno de 2014
Fotografias de Humberto Nicoline
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| JF anos 80: fotografias, de Humberto Nicoline (Juiz de Fora: Funalfa, 2009) |
quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015
O CRONISTA QUE NOS FALTAVA
Prefácio do livro Passeio pela cidade, de Juliano Nery
(Juiz de Fora: Funalfa,
2013)
Fernando Fiorese
Saber orientar-se numa cidade não significa muito.
No entanto, perder-se numa cidade, como alguém
se perde numa floresta, requer instrução.
Walter Benjamin, Obras escolhidas II: Rua de mão única
Em meados do ano 2000, por ocasião das comemorações dos 150 anos de Juiz
de Fora, o jornal Tribuna de Minas
acolheu alguns textos que escrevi sob o título geral de Plano estratégico de Juiz de Fora. Eram crônicas nas quais, após
cerca de 30 anos de residência quase ininterrupta nesta cidade, intentava
desvelar algumas poucas realidades e outras muitas ficções que definem o lugar,
o tempo e o ser juiz-foranos. Numa dessas crônicas, intitulada “A cidade por
trás das manchetes”, lançava a seguinte indagação: “Onde os cronistas que
humanizam os espaços da cidade, doando sentidos, personagens e movimentos à
nossa cena cotidiana?”
Nenhuma cidade pode prescindir de um ou mais cronistas para inscrever no
seu livro de registros os acontecimentos efêmeros, as figuras anônimas, os
dramas menores, as paisagens transitórias e transitadas. Mais do que o
jornalista ou o poeta, o cronista é o “pequeno historiador urbano” a que refere
Drummond no poema “Nosso tempo”. Trata-se daquele que, com seus dois dedos de
prosa, oferece aos leitores o fio de Ariadne com que penetrar os enigmas de uma
cidade diária e pedestre, concreta e polifônica. Na sua escrita menor, situada na região difícil entre
o jornalismo e a literatura, o cronista realiza a tarefa ingente de fazer da
cidade que habitamos a cidade que nos habita, de realizar a conjunctio oppositorum entre as rudezas
prosaicas da realidade urbana e o açúcar das memórias, sonhos e ficções que nos
permitem partilhar um mesmo coração civil.
A contrapelo de tais considerações, há décadas a imprensa juiz-forana
tornou-se e continua avessa à presença de cronistas em suas páginas. Sequer um
mísero rodapé restou àqueles que se dedicam a traduzir em palavras “a vida ao
rés-do-chão”, como Antonio Candido intitulou o seu já clássico ensaio sobre a
crônica. Desde José de Alencar até Carlos Herculano Lopes, passando por Machado
de Assis, Olavo Bilac, João do Rio, Rubem Braga, Carlos Drummond de Andrade,
Rachel de Queiroz, Fernando Sabino, Otto Lara Resende, Paulo Mendes Campos,
Nelson Rodrigues, Clarice Lispector, Luis Fernando Veríssimo, Affonso Romano de
Sant’Anna, Carlos Heitor Cony, João Ubaldo Ribeiro e muitos outros, os nossos
poetas e escritores emprestaram a sua pena aos jornais e elevaram à condição de
personagem mítica as cidades que tinham como lugar de habitação.
Porque não há cronista do mundo, não há cronista cosmopolita. Todo
cronista é cronista de uma cidade – às vezes, de um bairro: lembremos a
Copacabana de Rubem Braga. Talvez porque, para este perscrutador de minúcias e
instantes, este detetive dos crimes ínfimos, este biógrafo das vidas menores,
este retratista de personagens em fuga, a geografia de uma única rua seja um
território demasiado extenso, percorrido a passos miúdos com sua lupa de
precisão e afeto. Todo cronista é mesmo um escritor de província, mas nunca um
provinciano, uma vez que alarga o lugar da escrita ao ilimitado do cosmos
humano. E se os jornais da cidade lhe negam espaço, perdem os jornais, mas não
a cidade e os leitores. O cronista sabe outras tantas estratégias de se
infiltrar e oferecer a sua prosa como instrumento de reflexão (no sentido
intelectual e ótico) sobre e da comunidade.
| O autor, no traço de Raphael Salimena... |
E não é outro o caso de Juliano Nery, que neste volume reúne algumas das
crônicas que publicou no portal Acessa.com
entre 2010 e 2012. Tendo Juiz de Fora como lugar da escrita, tal recolha
empenha-se por desvelar uma cidade que permaneceria oculta por detrás das
manchetes dos jornais e dos noticiários televisivos não fora o empenho do
cronista em registrar as suas misérias e as suas grandezas, de escavar os
tempos e lugares ocultos sob a pátina dos discursos oficiais e oficiosos. Para
tanto, Juliano Nery se faz flâneur e
elege o passeio como linha de mira de uma prosa alheia às firulas e afeita à
crítica e ao humor. Observador privilegiado – porque pedestre e despretensioso
–, o cronista passeia Juiz de Fora com afeto e indignação para flagrar os
desmazelos políticos, as idiossincrasias dos proverbiais “cariocas do brejo”,
as pedras interpostas nos caminhos do cidadão comum, os personagens que
permanecerão ad aeternum nas nossas
memórias e, queiram os deuses!, jamais merecerão o opróbrio de ter os seus
nomes emprestados a alguma praça ou rua. Estão aqui, traduzidos ao rés-do-chão,
os bares que frequentamos, os embates de guarda-chuvas e sombrinhas de que
participamos na “cidade das quatro estações”, os nossos modos estrangeiros e as
nossas estranhas manias (mesmo as inconfessáveis). Está aqui uma cidade inteira
em miniatura – caricatura de todos e de cada um de nós, fino desenho de uma
pena que sabe o traçado da larga Avenida Rio Branco e, talvez, o ponto ocupado
na nossa geografia pelo Beco do Sapo.
![]() |
| ... e a obra |
Juliano Nery partilha comigo e muitos outros uma condição fulcral do
juiz-forano: não nasceu na cidade, migrou de São Lourenço (Sul de Minas) e aqui
se estabeleceu de mala e cuia, apesar da vida em trânsito. Porque o juiz-forano
é, originariamente e antes de tudo, um “ser do trajeto”, aquele que demora às
margens do Caminho Novo, tensionado entre as promessas do ouro nas Minas e o
fausto da Corte. E esta condição estrangeira do cronista parece ser a força
motriz de seus passeios pela cidade, os olhos armados para surpreender as
diferenças que singularizam Juiz de Fora e seus habitantes.
Eis o cronista que nos faltava. Como queria o poeta de “Mãos dadas”,
comprometido com “o tempo presente, os homens presentes, / a vida presente”,
comprometido com a cidade, a escrita e o leitor. Eis Juliano Nery, o cronista
que não espera mais de seus textos que a morte abrupta do dia seguinte, da
edição seguinte – embora o acaso e os leitores exijam que alguns deles alcancem
a pequena eternidade do livro.
Juiz de Fora, outono de 2013.
Post scriptum:
Textos
de Juliano Nery estão disponíveis no site
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