sábado, 27 de outubro de 2012
segunda-feira, 22 de outubro de 2012
quarta-feira, 17 de outubro de 2012
[Sobre Buster Keaton]*
O clown e a máquina
Fernando
Fiorese
No domínio do pensamento finissecular, as
novas tecnologias ocupam uma posição central. Seja para condenar o uso
predatório da imagerie desenfreada ou para realizar o trabalho de luto
das formas teóricas e críticas que propugnam pela oposição homem-máquina, seja
para desvelar as possibilidades das poéticas tecnológicas ou para questionar o
narcotráfico das utopias (Eduardo Portella) que o virtual enseja, empenham-se
os pensadores da Baixa Modernidade na inelutável tarefa de enfrentar o enigma
da técnica. Na medida em que veiculam percepções, produzem subjetividades e
anunciam os paradigmas de novas formas de pensar, sentir e estar no mundo, as
tecnologias se tornam um vocativo para o pensamento.
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Sherlock, Jr. (1924) The navigator (1924) |
A Revolução Industrial criou um ambiente de contínuo devir, transformou
as atividades perceptivas e cognitivas e colocou ao nosso dispor tanto técnicas
de reprodução dos aspectos dinâmicos da vida moderna quanto de produção de um
novo real. A adaptação do homem à instabilidade cronotopológica instaurada pelo
progresso dromológico (Paul Virilio) encontrou nos veículos de
transporte e de comunicação o treinamento perceptivo adequado. Com as próteses
de deslocamento e de visão, aprendemos as lições do tempo tecnológico e do
espaço aleatório, da transferência maquínica de nossos sentidos e da consanguinidade
entre homem e instrumento.
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Seven chances (1925) Go West (1925) |
Embora anterior ao advento da sociedade telemática, a filmografia do ator
e diretor norte-americano Buster Keaton** (1895-1966) nos oferece a oportunidade
de pensar algumas das questões que agitam os debates acerca da acoplagem entre
homem e máquina. A obra do “geômetra do riso” satiriza a sociedade empenhada na
realização dos grandes fins tecnológicos, apresentando um insólito sumário dos
modos de relação do humano com o mecânico. O maquínico contamina a montagem e o
ritmo do filme, a estrutura da narrativa, a construção das gags, as
qualidades e potências do ambiente, os gestos, os comportamentos cinéticos e as
trajetórias do personagem.
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The General (1927) |
Mas o herói keatoniano não duela com a máquina, e sim com o imenso e
catastrófico universo que ela engendra. A máquina é antes um aliado, um órgão
que lhe permite adaptar o esquema sensório-motor aos desafios do ambiente
urbano-industrial. A máquina se torna o lugar de habitação. E assim o clown pode
inventar máquinas-casas, máquinas-trens, máquinas-barcos, máquinas-cinemas...
Ou converter o próprio corpo em mecanismo, em instrumento. Não
para realizar os grandes fins tecnológicos, mas para a conversão dos sistemas
maquínicos ao minúsculo, às necessidades do homem comum.
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Steamboat Bill Jr. (1928) |
Os gadgets que o personagem manipula ou inventa demonstram as
possibilidades do agregado homem-máquina diante dos perigos do universo
tecnológico: não a submissão à mecanicidade pura, mas a educação dos sentidos
na dinâmica da realidade. Quando a situação exige, o elemento técnico
potencializa o corpo para o duelo, transformando-o num dispositivo que penetra
na máquina do mundo para contaminá-la com o nonsense cômico ou as
finalidades humanas. Mesmo sob o risco do acidente e da morte, o herói aceita o
desafio de desvelar o enigma da tecnologia para construir o corpo, a percepção
e os afetos do homem futuro. Neste sentido, as thrill comedies de Keaton
funcionam não apenas como máquinas de rir, mas também máquinas de pensar, de
questionar os agenciamentos que inauguram a relação do homem com a tecnologia.
The cameraman (1928) |
Publicado originalmente
no
Jornal do Congresso de Ciências Humanas, Letras e Artes,
Juiz de Fora, 1º de
maio de 1997.
(*) Os interessados na obra de Buster Keaton podem tentar conseguir um raro exemplar do meu ensaio Trem e cinema: Buster Keaton on the railroad (São Paulo: Cone Sul, 1998).
(**) Para download dos filmes de Buster Keaton em domínio público, acessar: http://archive.org/search.php?query=Buster%20Keaton
(**) Para download dos filmes de Buster Keaton em domínio público, acessar: http://archive.org/search.php?query=Buster%20Keaton
segunda-feira, 8 de outubro de 2012
Escrever à distância
Fernando Fiorese
Há os que usam a palavra para excomungar o outro e o
mundo, submetê-los, colocá-los na distância medida e adequada à vigilância, ao
controle. Trata-se de fazer dela não mais que uma arma, um instrumento a
serviço do poder político, econômico, religioso, ideológico ou de classe.
Também há aqueles que, com a irresponsabilidade dos maus pornógrafos ou dos
falsos moralistas, tomam a palavra para conduzi-la à ruína, gastá-la em
frivolidades, até que nada reste do sentido, senão a linha interminável e
enfadonha do tagarela. E há ainda, talvez na fronteira entre os dois tipos
anteriores, os que encontram na palavra um artifício para encobrir a realidade,
mudá-la em algo mais próximo dos seus devaneios, construir um mundo conforme os
seus desejos. São estes os mentirosos patológicos e os delirantes contumazes.
Em seus numerosos desdobramentos e variantes, estes usos
da palavra participam dos nossos muitos modos de escrever. E não creio que
qualquer um de nós esteja livre de suas armadilhas, exceto quando, cientes da
miséria e da grandeza da linguagem, nos empenhamos em escrever com o cuidado de
quem afina um instrumento, de quem prepara a voz para participar do canto coral
da humanidade. Tais considerações assaltam este cronista aprendiz quando,
diante do computador, procuro acolher o convite que o Jornal de Angola me
dirige através de meu ex-aluno Augusto Alfredo, atual editor de Economia do
único diário angolano. E me assaltam não na forma retilínea, amena e prosaica
com que procurei traduzi-las nas linhas anteriores, mas ao modo de questões que
amiúde interrompem a escrita, transtornam o saber sabido e, ao mesmo tempo, acionam
o desejo de fazer da palavra o lugar do encontro humano.
Quem poderá falar a palavra capaz de transpor as
diferenças e encontrar as identidades entre povos tão distantes e tão próximos
quanto o angolano e o brasileiro? O que pode dizer este estrangeiro àqueles que
conheço apenas por livros, jornais, revistas ou, quando muito, pelas palavras
vivas de outros que no Brasil foram também estrangeiros? Como escrever para um
leitor que está separado de mim não apenas por um oceano físico, mas também
histórico e cultural? Quando calar ou aumentar o volume da voz? Quando amenizar
o verbo ou usar de palavras ásperas? Quando investir na lógica dos argumentos
ou apelar para a poesia dos sentidos se tão pouco sei das paisagens e dos
aromas de Angola, do coração e da mente do leitor a que me dirijo? Onde colocar
o desejo de escrever próximo, de falar cara-a-cara, de me tornar íntimo e confidente
quando qualquer uma destas palavras, tão familiares para mim, pode ser um
completo mistério para os amigos que procuro na distância? Por que, afinal, arriscar-me
neste dizer em prosa o que vai pelos dentros de um homem, como pudesse
ultrapassar as fronteiras e tocar o ombro do leitor para fazê-lo ver o que nos
reúne?
São estas as questões que movimentam meus dedos sobre o
teclado. Não tenho respostas, nem espero obtê-las. Escrevo apenas porque elas
me impulsionam, como um dia outras questões fizeram com o menino (que perdi e
aqui recupero) diante das primeiras letras do alfabeto. Entre pasmo e
amedrontado, tateando as curvas da escrita e os abismos do significado, também
aquele menino nada sabia – e pouco aprendeu depois disso – do mundo que pretendia
mudar em palavras. E se o homem maduro sabe que a palavra não muda o mundo, o
menino teima enquanto escrevo. Está outra vez no quarto da casa paterna, a
bordar algumas palavras porque as quer mais belas, a rasurar outras que
acredita ameaçadoras ou perversas, a apequenar umas tantas por julgá-las demasiado
altas para seus olhos.
Este o menino que em mim escreve, fechado em quatro
paredes e tendo as palavras como janelas. Ele não cessa, ainda quando o verbo
amedronta ou queima o papel. Ele não cansa de desaprender a gramática e a
semântica apenas para, uma vez mais, ter o espanto da descoberta. Ainda posso
vê-lo deitado de bruços, lápis em punho, a escavar o caderno de caligrafia como
quem desmonta um brinquedo e com suas peças faz muitos outros. Porque a palavra
não é mais que isso, um brinquedo que o acidente conserta e assim se oferece ao
leitor para outros desmontes. E logo que surge uma qualquer atração, seja o
corpo da vizinha, um inseto estrangeiro, um velocípede vermelho ou o reclame do
circo, o menino interrompe o lápis e procura na matéria do mundo o que as
palavras apenas anunciam. Mas trata-se de uma fuga breve, embora intensa,
porque o menino confia que na palavra possa reunir a vizinha, o inseto, o
velocípede, o circo – e assim experimentar as suas pequenas eternidades. E se
ele empresta alguma coisa a este que agora escreve, perdidas as ilusões e a
inocência, não é outra coisa senão o saber que a palavra nos abre a realidade,
nos coloca à procura das coisas, nos permite a comunhão com o outro, ainda
quando se tem de escrever à distância de um oceano.
Publicado originalmente no Jornal de Angola,
Suplemento “Vida Cultural”, Luanda (Angola), 28 set. 2003, p. 2.
quinta-feira, 4 de outubro de 2012
A flor do meu esquecimento
Fernando Fiorese
Aos 40 anos, torna-se menor o medo do ridículo, a
tensão física muda em tensão lírica, enfrenta-se o espelho com mais tolerância
e generosidade, declina a mania de perfeição, aprende-se o saudável
esquecimento e o prazer das ficções na própria biografia. Aos 40 anos, sem
afetar pudor ou auto-piedade, podemos enfim reconhecer as nossas muitas ignorâncias,
os nossos pequenos crimes diários, os traumas inconfessáveis, as covardias e
temores escondidos, as incompletudes jamais preenchidas.
E mais, podemos confessar essas faltas e desvios até
para um desconhecido que nos surpreenda na fila do banco ou na sala de espera
do dentista. Trata-se mesmo de um ritual de purificação, de um acerto de contas
conosco e com o que fizemos de nossa vida, de reconhecer o homem e suas
circunstâncias. Trata-se de aceitar que, embora desejando uma epopeia, a nossa
vida não foi mais que a mistura de drama burguês e comédia, na qual as lágrimas
apenas umedeceram o lenço e os risos cessaram com o esquecimento da piada.
Ah, quantos livros não li por preguiça ou excesso de
trabalho, quantos amores adiei com receio de errar, quantas conversas
interrompi por impaciência ou pressa, quantas viagens cancelei para
resguardar-me do clima ou dos perigos da estrada, quantas palavras não disse
por medo de ser inconveniente ou demasiado amoroso, quantos silêncios guardei
para evitar a entrega ou ferir o outro, quantos idiomas não aprendi porque não
soube acomodar a língua à pronúncia estrangeira, quantos filhos mais não tive
por temer os olhos do futuro.
Ah, meu caro leitor, aos 40 anos posso enfim
confessar os horizontes que desconsiderei ou perdi porque tinha os olhos
enterrados no chão, o pânico de ser confundido com um homem comum e banal, os poemas
que escrevi para me vingar de algum desafeto, os filmes em que cochilei, o
desdém pelas frutas que desejava mas minhas mãos não alcançaram, os bailes em
que fingi uma torção no pé para não dançar, a timidez que invento para
livrar-me dos compromissos sociais e dos que considero enfadonhos, as flores
que deixei murchar no jardim ao invés de colhê-las para uma qualquer namorada.
Falando flores, falo
primavera, talvez porque desde o dia 23 de setembro esteja ela empenhada em
pronunciar suas cores, seus aromas, suas luzes contra as janelas do inverno e
transformar a ventania em brisa e antecipar as manhãs e revigorar as flores
desmanteladas pela última chuva de granizo. Falando flores, assim de modo
genérico, falo de uma das minhas mais sentidas e lamentáveis ignorâncias: tenho
pouco ou nenhum conhecimento sobre elas.
Talvez porque seja não
mais que um enamorado das palavras, posso enumerar o nome de algumas – cravo,
rosa, jacinto, tulipa, hortênsia, violeta, magnólia, lírio (e mais não sei).
Mas não esperem que as identifique num jardim ou na floricultura, que discorra
sobre suas espécies e variedades, suas cores, aromas e períodos de floração. No
entanto, desconhecê-las não me impede de apreciar, de desejar as flores, como
se aprecia e se deseja uma mulher que conhecemos apenas de nome ou de vista.
E foi este desejo e os
avanços da primavera que me levaram à floricultura, onde a memória dos lábios
da namorada se impôs num belo vaso de flores entre o vermelho e o violeta. Com
o cuidado de quem carrega nas mãos a própria primavera, atravessei a cidade
para depositar as flores aos pés de Bárbara. No entanto, o que deveria ser um
tributo aos sentidos, uma declaração de amor, um pequeno rito em prol da
instalação definitiva da primavera, não fez mais do que me defrontar com a
minha cabal ignorância.
– Que flores lindas! –
disse-me Bárbara antes de despetalar os seus lábios nos meus. – Qual o nome
delas? Tinha de outras cores? Precisam ser aguadas de quanto em quanto tempo?
Será que elas gostam de luz direta? Podem ficar na varanda? Lá bate muito sol.
E venta...
Tantas perguntas e a minha
ignorância. Confessável porque tenho 40 anos, porque sei mudá-la em riso ou em
crônica. Mas ainda assim uma falta que me torna menor, um vazio que carrego e
já não consigo nem quero esconder. (Ah, minha amada, pouco ou nada sei desta e
das demais flores, senão colher nelas o cheiro do seu corpo, a maciez da sua
pele, a cor dos seus lábios...) Poderia ter-lhe dito o que aqui vai entre
parêntesis, mas corri de volta à floricultura e, sôfrego, repeti à vendedora
cada uma das perguntas de Bárbara. E ali, sob o olhar de desprezo de uma
inteira floresta de cores e aromas, era apenas um menino boquiaberto a receber
da professora, alta e generosa, a lição da qual estive ausente, desde o nome da
flor – gloxínia – até os modos de cuidar dela. Quanto a Bárbara, bem, Bárbara
tornou-se a flor do meu esquecimento.
Publicado originalmente no Jornal de Angola,
Suplemento “Vida Cultural”, Luanda (Angola), 12 out.
2003, p. 2.
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