segunda-feira, 5 de novembro de 2012

O gol e a lógica do jogo

PAULINHO CRICIÚMA

Fernando Fiorese

O jogo é a afirmação e a entrega do homem num movimento sem fins ou objetivos, libertando-o das noções ordinárias de tempo e espaço para suprimir, no puro prazer de jogar, a transitoriedade e a finitude humanas. Desta forma, conforme afirma Umberto Eco, “a atividade esportiva é dominada pela idéia do desperdício. [...] Há então um desperdício lúdico ao qual não podemos renunciar: exercê-lo significa ser livre e livrar-se da tirania do trabalho indispensável”.
A atual campanha do Botafogo no campeonato carioca e, particularmente, a performance do artilheiro Paulinho Criciúma (menos no gramado que no noticiário esportivo), nos permite dar tratos à bola e refletir acerca das peculiaridades da cultura brasileira contemporânea. Ao afirmar “O gol não é o momento lógico do jogo”, Paulinho Criciúma sintetiza a multiplicidade de angústias que se articulam no espaço de interação entre os jogadores e a audiência. Tais angústias, exacerbadas em sua violência e contágio durante o espetáculo esportivo, permeiam toda a vida cotidiana do homem contemporâneo, devido ao fato de nos subtrairmos do exercício lúdico e da racionalidade livre de objetivos em benefício de uma razão com funções instrumentais. E assim, através da razão instrumental e com o objetivo de administrar o tempo e o espaço da experiência humana, a cultura de massa logrou imobilizar os movimentos e separar fisicamente os participantes do jogo, investindo no individualismo, na passividade, na hierarquização e na espetacularização.
A afirmação do jogador botafoguense, consciente ou inconscientemente, parece significar a negação do futebol como espetáculo de massa, na medida em que recusa a presença da logicidade inerente ao espetáculo quando inserido na esfera do consumo. As expectativas da audiência em relação ao espetáculo e, principalmente, em relação ao jogador são definidas pela mesma lógica que impele o espectador a consumir o evento esportivo. Neste sentido, cumpre-nos observar que o atleta, ainda segundo Umberto Eco, é o resultado das “primeiras degenerações da competição”, ou seja, “a criação de seres humanos destinados à competição”. E tal destinação faz do atleta um ser que hipertrofiou um único órgão, mudando o seu corpo na sede e na fonte exclusiva de um jogo. Esta metamorfose independe da vontade ou da consciência do jogador, pois abarca todos nós que participamos do jogo da cultura e por ele somos jogados. Eleito mito da sociedade de consumo, resta ao atleta se deixar consumir e consumir-se na logicidade da hipertrofia.
“As novas técnicas criam um tipo de espectador puro, isto é, destacado fisicamente do espetáculo, reduzido ao estado passivo e voyeur. A afirmativa de Edgar Morin nos remete à distância a que foi deslocada a audiência no espetáculo esportivo, sendo reduzida então ao mero exercício do olhar na medida em que não tem possibilidade de aderir fisicamente àquilo que contempla. O espectador de futebol, seja no campo, seja via televisão, integra-se ao espetáculo não para jogar, mas para ser jogado e enredado nas tramas do consumo.
Natural, então, que o torcedor venha a exigir do atleta a mesma submissão a que se sujeita como consumidor do espetáculo: o gol deve ser a lógica do jogo, pois o evento esportivo está inserido no princípio racionalizador das relações sociais. A cultura de massa, ao substituir a realidade vital do homem por um simulacro técnico e funcional, forjou um modelo mecânico que se estende à própria organização da sociedade, determinando as necessidades, os comportamentos e as expectativas individuais. Portanto, nada mais natural que o espectador exija do atleta a abolição do acaso, principalmente se considerarmos os processos de tecnicização dos esportes, de profissionalização dos jogadores e de organização/ordenação das torcidas.
As vaias ou os aplausos da torcida expressam a exigência em relação aos jogadores da contraparte de sua participação no espetáculo. O espectador submeteu-se à lógica do consumo, devorando a sua existência e o seu tempo e evadindo-se das realidades social, política e econômica, de forma a permitir o domínio racional da natureza exterior e humana. Espera, então, que o atleta, enquanto operário especializado do espetáculo, utilize a racionalidade técnica para criar uma segunda natureza do jogo, do futebol – enfim liberto do acaso, do desperdício, da ausência de lógica.

Publicado originalmente no jornal Tribuna da Tarde,
Juiz de Fora, em 12 de abril de 1989.

Botafogo, 1989. Da esqueda para a direita, de pé: Josimar, Ricardo Cruz, Vitor, Mauro Galvão, Wilson Gottardo e Marquinhos. Agachados: Luizinho, Milton Cruz, Paulinho Criciúma, Gustavo e Maurício.

5 comentários:

  1. Eu que não gosto de futebol, amei a sua crônica!! Abraços

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    1. Obrigado, Maria Helena, pela leitura.
      Beijos,
      Fernando

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  2. Tão atual quanto perfeita a sua análise, Fernando Fiorese. Hoje, mais que em 1989, a espetacularização (esse termo já soa tão batido, né?) e a especialização do futebol e da vida transformam o homem em um quase-objeto a cumprir papéis que a sociedade capitalista lhe impõe. "(...)enfim liberto do acaso, do desperdício, da ausência de lógica." E liberto da vida, completo eu.

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    1. E "liberto" da vida, completo eu.

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    2. Prezada Ercilia,
      Agradeço muito a sua leitura e os seus comentários. Alegra-me que tenha gostado.
      Abraços,
      Fernando

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