(ou Nove considerações de todo inúteis para ler este livro)
Prefácio do livro
Rubem
Braga com a FEB na Itália:
crônicas-reportagens,
literatura da notícia,
de José Geraldo Batista
(Curitiba: Prismas, 2014)
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José Geraldo Batista na Casa dos Braga (Cachoeiro do Itapemirim – ES) |
Fernando
Fiorese
Nove
Todo prefácio é inútil. E ainda que se lhe atribuam numerosas
funções – como têm feito desde Aristóteles (Téchne
retoriké, circa 350-335 a .C.) até Gérard Genette
(Seuils, 1987) –, prefácio só
funciona quando inútil e anterior. O prae
do termo em latim (praefatĭo, -ōnis) e seus similares ante e pro – presentes nos sinônimos anteâmbulo, antelóquio, apresentação,
preâmbulo, prefação, preliminar, prelúdio, proêmio, prolegômenos, prólogo,
prolusão – referem tal anterioridade, e talvez encontremos nesta o modo como e
por que funciona o prefácio na sua brutal e inelutável inutilidade. Assim
poderia dar conta da questão que me espreita e aciona – e por isto endereço aos
eventuais leitores: por que me pedem e por que escrevo um prefácio, mesmo
sabendo tratar-se de um inutensílio textual?
No caso
deste prefácio, devo o pedido à generosidade do autor, José Geraldo Batista,
decerto uma retribuição a maior pela orientação da tese de doutoramento que ora
muda em livro. E se o escrevo não é apenas para estar à altura do convite, mas
porque escrevê-lo é a única resposta que posso dar à questão antes referida,
uma resposta decerto falha e transitória – melhor, no entanto, que a negativa ou
o silêncio. Se o escrevo é porque confio que, no seu caráter inútil e anterior,
o prefácio empresta ao leitor um lugar incomum, posto que não precisa existir.
Mas quando existe figura uma zona de fronteira onde descansar o corpo das
bagagens e reaver as forças para a viagem que importa.
Tal afiança Umberto Eco em Sei passeggiate nei boschi narrativi (1994), “todo texto é uma
máquina preguiçosa que pede ao leitor para fazer uma parte do seu próprio
trabalho”. Assim, todo prefácio não é mais que a soleira desta casa de máquinas
paradas, sempre à espera da energia laboriosa do leitor para entrar em
operação. Mesmo inútil e anterior ao tour
de force da leitura, o prefácio se dispõe como sombra da obra e, deste modo,
oferece ao leitor o tempo preciso e o clima ameno para ajuntar as forças
necessárias à ignição do texto-máquina.
Oito
A zona de fronteira é também o lugar
da crônica no concerto dos gêneros da escrita. Com parca bagagem, muitos
passaportes e corpo indecidível, a crônica transita do registro dos
acontecimentos cotidianos até o poema em prosa, com visitações à narrativa
curta, ao humor, à crítica (política, de costumes, dentre outras), à reflexão
filosófica, à memorialística, ao testemunho etc. Entre a objetividade
jornalística e as potências do imaginário, a crônica é bailarina na corda bamba
entre o fato e a ficção, sempre zombando da escolástica adaequatio rei et intelectus, sempre reenviando a imaginação à
realidade. Ainda que seja uma pausa na proliferação desenfreada de informações,
a crônica não refresca. Ao contrário, transtorna tanto os manuais de literatura
quanto a fácil dicotomia de verdade e mentira.
Sete
Contrabandistas, exilados,
desertores, prostitutas, alienados, traficantes, andarilhos, fugitivos,
soldados e espiões – sem qualquer julgamento moral ou analogias indevidas – são
habitantes típicos das zonas de fronteira. De qual destes tipos mais se
aproximaria a figura do cronista? Talvez do contrabandista, carregando cargas
ilícitas do jornalismo para a literatura (e vice-versa). Talvez do exilado que,
abandonando o território prosaico da imprensa, não quer mais que um visto
provisório para o país da poesia. Talvez do alienado, à deriva na terceira
margem do rio da escrita... Decerto do espião, a cujas características
específicas assim refere José Castello: “O cronista é um agente duplo: trabalha
ao mesmo tempo para os dois lados, e nunca se pode dizer, com segurança, de que
lado ele está. Na verdade, ele não está em nenhuma das duas posições, nem da
verdade nem na da imaginação – mas está ‘entre’ elas” (As feridas de um leitor, 2012).
Seis
A guerra será sempre uma zona de
fronteira onde abundam os tipos citados e muitos outros. Tanto que, na crônica
“Véspera de S. João no Recife”, assombrado pela sua primeira experiência como
correspondente de guerra durante a Revolução Constitucionalista de 1932, Rubem
Braga (1913-1990) reitera esta analogia: “... eu era um espião da vida, no meio
da morte. Eu ainda não tinha vinte anos, não tinha mais nenhum deus para me
entender depois da morte, não tomava banho há um mês, estava sujo e magro, meu
lápis de repórter quebrou a ponta. Havia esse mesmo crepitar de fogos pela
vasta noite, e, junto dos acantonamentos, as fogueiras se acendiam para os
soldados gelados. Meu papel de repórter estava sujo da terra das trincheiras,
eu já não escrevia nada. A guerra era demasiado estúpida para não me fazer
sorrir, eu não reconhecia aliados nem inimigos; apenas via homens pobres se
matando para bem dos homens ricos; apenas via o Brasil se matando com armas
estrangeiras” (O conde e o passarinho,
1936).
Cinco
O vocábulo “espião” alcança o português
através do italiano spione, derivado
de spia, substantivação do verbo spiare. Para encurtar o percurso
etimológico deste termo, que passa pelo francês antigo espier (a partir do frâncico ou do proto-germânico spëhon), diga-se logo da sua origem latina
no verbo specǐo, -ěre (avistar, ver, olhar), provavelmente advindo do grego skopeýo, com inversão da raiz. Fato é
que muito do étimo foi mantido nas línguas ocidentais – spion (alemão), espia
(castelhano), espion (francês), spy (inglês) etc. –, ainda que o
trabalho das passagens entre tantos idiomas tenha rasurado, abreviado ou
silenciado alguns dos sentidos originários do verbo grego (skopeýo): observar de longe, avistar; mirar, ter por fim, aspirar
a; ter cuidado, velar por, preocupar-se com; olhar, examinar, observar,
explorar, espiar; refletir, julgar, investigar; precaver-se; perguntar,
informar-se. Confio que, a partir deste elenco de significados, o leitor saberá
desdobrar as possíveis correspondências entre as tarefas do cronista e do
espião, em particular no cenário de guerra desvelado pela obra estudada por
José Geraldo Batista neste Rubem Braga
com a FEB na Itália: crônicas-reportagens, literatura da notícia.
Quatro
No teatro de operações da Segunda
Guerra Mundial (1939-1945), outra vez o repórter Rubem Braga se faz “espião da
vida, no meio da morte”, contrabandista da civilização nos campos italianos da
barbárie, exilado da paz à cata do lírico que possa existir na mais bruta e
cabal tragédia. Para tanto, cumpre ao correspondente de guerra inventar um modo
de ser cronista nesta zona de fronteira entre o “mal radical” do totalitarismo
(Hannah Arendt, Origens do totalitarismo,
1990) e o humano, demasiado humano dos pracinhas brasileiros: “Minha ambição,
quando fui escolhido para correspondente de guerra do Diário Carioca, era fazer uma história da campanha. Está visto que
eu não pretendia fazer uma história que interessasse aos técnicos militares,
mas uma narrativa popular, honesta e simples, da vida e dos feitos de nossos
homens na Itália. Uma espécie de cronicão da FEB, à boa moda portuguesa antiga”
(Com a FEB na Itália, 1945).
Três
O tal “cronicão” exigirá de Braga a
traição elegante tanto do jornalismo quanto da literatura. Por um lado, declina
dos princípios da objetividade, imparcialidade e universalidade para registrar
a campanha da Força Expedicionária Brasileira na Itália como quem escreve a
história imediata vista de baixo, ou seja, pelos olhos desarmados dos
pracinhas, aos quais o lápis e o papel do repórter dão voz e vez, identificando-os
pelo nome, cidade de origem e outros pormenores. Ainda que redigidas sob a
vigilância da censura estado-novista, as crônicas de Com a FEB na Itália não descuram das subjetividades transtornadas
pela guerra, da crítica aos totalitarismos de qualquer natureza ou latitude, do
redobrado interesse pelos personagens e acontecimentos mais banais e
comezinhos. Por outro lado, o devaneio e o lirismo que, por vezes, atravessam
estas crônicas são apenas um breve e necessário recreio para, algumas linhas
adiante, reencontrar e suportar a verdade chã da guerra, selva selvaggia de morte e miséria.
Dois
Considerado “comunista” pela
ditadura Vargas, um espião da liberdade nos intestinos do totalitarismo, Braga não
dispunha de franquia telegráfica para o envio de suas crônicas-reportagens, as
quais alcançavam o Rio de Janeiro via mala postal aérea, às vezes com lapso de
tempo superior a um mês. Tal restrição lhe permitia circular sem afobação por
todas as posições do campo de batalha, entabular longas conversas com todo tipo
de gente, incluindo expedicionários de qualquer patente e cidadãos italianos,
demorar-se na observação minuciosa da paisagem natural e humana. Ou seja, o
cronista podia realizar todos os sentidos originários do verbo grego skopeýo, podia ser o espião que se
propôs, armado tão somente de imaginação lírica e fúria jornalística.
Um
Este texto foi apenas uma contagem
regressiva. Cumpre a você, leitor, acionar a máquina que José Geraldo Batista
engenhou sem qualquer preguiça nas páginas que seguem.
Zero
Juiz de Fora, junho de 2014.
Post scriptum:
Rubem Braga
com a FEB na Itália: crônicas-reportagens, literatura da notícia, de José
Geraldo Batista, pode ser adquirido no site
da Editora Prismas: http://editoraprismas.com/loja/product_info.php?products_id=334&osCsid=cb48320d3473ec19b70a858ef21d4998.