segunda-feira, 24 de setembro de 2012

A infantilização da cultura



Fernando Fiorese

Nos anos 70, Edgar Morin afirmava que “a cultura de massa desagrega os valores gerontocráticos, acentua a desvalorização da velhice, dá forma à promoção dos valores juvenis, assimila uma parte das experiências adolescentes”. No entanto, ressalta o pensador francês, a cristalização dos valores de contestação também rubrica a adolescência: “... repugnância ou recusa pelas relações hipócritas e convencionais, pelos tabus, recusa extremada do mundo”.
Assim, pode-se dizer que, entre 1950 e 1970, a cultura de massa empenhou-se por harmonizar os desejos dissonantes da juventude sob as formas estandardizadas dos mass media, com o objetivo de “enfraquecer as arestas e atrofiar as virulências”. No entanto, os valores adolescentes demonstraram-se por demais antagônicos e contestadores, como atestaram as rebeliões estudantis de fins da década de 1960. As tentativas de controlar e padronizar os paradoxos e os paroxismos juvenis determinaram apenas a exacerbação de manifestações conturbadas e avessas às necessidades do ciclo inelutável de produção e consumo.
A juventude, então, denunciava com vigor e virulência os arquétipos empregados pela indústria cultural na produção dos bens simbólicos da sociedade de consumo: amor, felicidade, valores privados, individualismo etc. E também as estratégias de elisão da morte (representada pelo processo de envelhecimento) e de afirmação do tempo histórico linear, do presente contínuo, sobre o qual se constrói a ilusão de uma futura idade de abundância e liberdade.
Não por acaso, nas palavras do poeta e ensaísta mexicano Octavio Paz, “o descrédito do futuro e de seus paraísos é geral. Não é de se estranhar: em nome da edificação do futuro, a metade do planeta cobriu-se de campos de trabalhos forçados”. As rebeliões juvenis denunciavam o ocaso dos projetos de eternidade e de futuro, disseminados, respectivamente, pela teologia cristã ocidental e pela teoria marxista ortodoxa. Ambas promoveram a desvalorização do corpo e da imaginação como fontes de prazer para torná-los força de trabalho. “Em nome do futuro”, acrescenta Paz, “completou-se a censura do corpo com a mutilação dos poderes poéticos do homem.”
Nas rebeliões estudantis, alia-se a valorização do corpo e do imaginário à recusa dos grandes discursos ideológicos no intuito de abalar as colunas do tempo linear e do presente contínuo que nos oprimem em benefício da construção de um futuro utópico. A juventude, ainda segundo Paz, espera “instintiva e confusamente que a destruição deste presente provoque o aparecimento do outro presente e seus valores corporais, intuitivos e mágicos. Sempre a procura de outro tempo, o verdadeiro”.
Não tardaria a reação da cultura de massa diante da rebeldia incontrolável e inesgotável da juventude. Necessário forjar nos vazios da ideologia estereótipos mais afeitos à fórmula do consumo passivo individual. Neste sentido, elege-se a infância como lugar privilegiado para o sequestro dos temas que, testados no decorrer da década de 1980, sobredeterminaram os produtos culturais de fins do século XX. Mas ressalte-se que não se trata da infância ela-mesma, com seus valores ativos de desvelamento do mundo, encontro com os materiais, afirmação dos sentidos, exercício dos instintos, atividade ininterrupta, espanto e aventura.
Ao contrário, nos últimos 20 anos nos deparamos com uma infantilização dos produtos culturais (programas televisivos, música, moda etc.) engendrada a partir do desfibramento e da simulação das características da infância: deslumbramento diante das imagens da hiper-realidade criada pela tecnologia, distanciamento dos materiais, negação dos demais sentidos em nome da hipertrofia do olhar, apatia dos instintos e passividade muscular. De todos os modos, acentua-se a supressão da realidade em benefício do signo, promovendo o rompimento das relações do homem com o concreto e o humano.
Quer nos parecer que o segundo batismo da infância pela tecnocultura representa mais uma estratégia da sociedade de consumo no sentido da elisão do ser-para-a-morte. Ainda quando o processo de infantilização da cultura, pela perigosa aproximação entre princípio e fim, remeta aos signos da morte, trata-se não do morrer, mas do regressar ao útero materno, onde estamos a salvo da brutalidade do mundo contemporâneo. Imóveis e protegidos no regaço da mãe-media, podemos enfim habitar um lugar alheio à morte e à violência.
Os programas infantis (e não apenas eles) veiculados pela televisão configuram um convite diário à vivência de um “mundo infantil” alienado da realidade concreta, pois experimentado tão-somente no espaço-tempo virtual. E assim, crianças, jovens e adultos substituem o desejo da “eterna juventude” de décadas anteriores pelo sonho da “infância eterna”, num processo de regressão de tal forma acelerado que, talvez, no decorrer do século XXI nos conduza à fetalização dos produtos culturais. Ou seja, à elaboração pela indústria cultural de bens materiais e imaginários que tenham como paradigma as necessidades e desejos do ser humano em estado intra-uterino. 
De qualquer modo, até então avessa à linha de produção e olvidada pelas estratégias de consumo, no decorrer das últimas décadas do século XX a infância tornou-se protagonista da cultura de massa, contribuindo não apenas com a absorção de produtos os mais diversos, mas também com sua força de trabalho. 

Publicado no jornal Tribuna de Minas
Juiz de Fora (MG), em 19 nov. 1989

3 comentários:

  1. Muito bacana sua reflexão Fernando! O detalhe do texto ter sido publicado em 1989 não muda em nada, é claro, sua atualidade. Achei curioso você falar em "elisão do ser-para-a-morte" (com todos esses hífens). A referência ao conceito heideggeriano me veio de imediato. Se ela foi intencional, o que mais exatamente o senhor queria dizer? Que a sociedade de consumo: tenta de forma estratégica, suprimir a certeza da finitude humana pela instauração de uma "constante infância" assim como impedir as pessoas de se angustiarem (visto que a angústia é a tonalidade afetiva que de assalto coloca a pessoa diante de sua condição de ser-para-a-morte)? Bom, essa é mais uma curiosidade minha sobre a reflexão do senhor do que propriamente um comentário.
    Abraço.
    Tarcísio L. Louzada

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    1. Caríssimo Tarcísio,
      Antes de tudo, quero agradecer a sua leitura e o comentário. Você acertou na mosca. De fato, se não me falha a memória, na época em que escrevi este texto estava às voltas com a leitura de algumas obras de Heidegger. Portanto, a sua inferência está absolutamente correta. Grande abraço, Fernando.

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  2. Cecy Barbosa Campos1 de outubro de 2012 06:48

    Texto de 1989 e tão atual. Vc retrata mto bem a situação em q vivemos, com o homem parecendo desconectado do mundo real e incapaz de reflexão.


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